sexta-feira, 17 de abril de 2009

Para não esquecer que existo...

Para não esquecer que existo
coloco entre todos os registros
charadas e adivinhações, simultaneamente
para estimular minha óbvia mente
que não sou um abstrato, nem um traço.

Vejo todos a minha volta,
me assusto com tamanha reviravolta
tudo rabiscado, nenhum espaço
para qualquer aconchego.
me enxergo e vejo:
- há de outros em mim.

Procuro num redemoinho de notas,
anotações e contas indefinidas,
por onde anda minha vida.
Os registros e charadas,
cheios de letras por cima,
em nada me encaixa.

Me confundo e realizo:
- será que me perdi no impreciso?

terça-feira, 14 de abril de 2009

Banho de chuva

O rosto de traços infantis contrastava com o batom vermelho e com a maquiagem pesada. Tinha apenas treze anos, mas tivera que se tornar mulher. A mãe morrera cedo. Do pai não sabia nem o nome. Talvez, nem a mãe soubesse. O espelho rachado dividia seu rosto. A roupa justa incomodava. Não o bastante para pensar em trocá-la. O suficiente para que percebessem.
A pia entupia. A água escorria. Molhava seus pés. Sentia-se suja. Restara pouco dinheiro no bolso e muitas lembranças da noite anterior. A pele arranhada. O cheiro de sexo. Marcas pelo corpo. Olhos grandes, assustados. Sorria. Esforçava-se para encobrir o seu fracasso com seus dentes amarelos. Decadência estampada em lágrimas. Sua infantilidade violada por estranhos. Engolia os soluços.
“Sorria! Mostre simpatia! Seja Gentil! Minta sempre que precisar, mas nunca diga que está triste. Não decepcione. Não preocupe os outros...”
A quem preocuparia? Não existia alguém nem para esquecê-la. Ninguém se preocuparia com a falta de bonecas na sua estante. Bonecas sempre tinham conserto. Quando rasgavam, sua mãe costurava. Colocava a perna de volta. Comprava olhos novos. Ela não sabia como consertar sua vida. Já era crescidinha. Não poderia chorar, nem ter medo. Precisava fazer tudo direitinho. Precisava se comportar como uma mulher. Uma menina não alimentaria seu estomago. Não deveria sentir pena de si mesma. Draminhas não resultariam em nada.
Sua vida já havia escorrido em tantos ralos, em banheiros públicos, em banheiros desconhecidos, em mármore, em cimento, nos braços de enfermeiras, nos braços de mendigos... Preenchia-se com uma sensação de perda. O corpo para quem pudesse pagar. As roupas emprestadas. Os sorrisos falsos. O dinheiro não duraria muito tempo. Seu tempo não duraria muito. A maquiagem sairia. O cabelo cairia. A beleza escorreria como sua vida. Restariam para ela ilusões. Sonhos de criança. O cheiro dos doces nas lojas. O banho de chuva. As bonecas nos braços das meninas. O balanço enferrujado na praça que trabalhava. Tolices de criança. O desejo contido da infância.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Enquanto isso...

desenterrando um pouco.

...Nos campos pós-guerra
- Parou, parou...
O serviço pára.
- Senhor, devemos separar os negros do resto?
- Sei lá, faz alguma diferença quando queimar?
- Não sei, não, Senhor.
- Bom, então cava um outro buraco ali e...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Tempo, tempo, tempo...

perco tempo ao ficar
ao partir
ao lutar

perco tempo ao sonhar
ao iludir
ao acreditar

perco tempo me medindo
me partindo
não usufruindo

perco tempo no ir
no voltar
no expandir

perco tempo não explicando
não acalmando
não amando

perco tempo não encontrando
não entendendo
não vivendo

quanto tempo ainda me resta?


[10.08.2008]

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Nem mesmo preso

Eu abaixarei meus óculos.
Eu me dedicarei à casas
se as coisas criarem vida.
Eu vou subtrair a dor aos poucos
é, eu vou até pintar casas
se as coisas criarem vida.

Eu prometo não cometer nenhum ato de violência
seja ele físico ou de outra forma,
se as coisas criarem vida.

Eu digo agora
digo agora
pois eu quero agora.

quanto personalidade torna-se uma marca de cicatriz
e parte para longe por desuso
sou sutil como a jaula de um leão
um demonstrar tão cuidadoso
lembre-se de aproveitar o seu tempo aqui
dê algum sentido aos seus meios
aos seus fins.

nem mesmo preso.

nós teremos tudo nos dias de desejo
nós vacilaremos como filhos de qualquer um
e consentiremos frente ao fogo.

Eu estou me perdendo nesse cuidado
sem trair nenhum outro sintoma
mas, menina, você tem o jeito.

vamos nos chocar num momento de silêncio
vamos vadiar pelas batidas da ciência
e, garota, você tem o jeito.

Mantenha-se assim, querida
seu cabelo é tão bonito.
dá pra sentir o calor da minha sinceridade?
Você muda tudo quando chora
você está fazendo a vida das pessoas parecer menos privada
não fique longe nenhum instante
você muda tudo quando chora.

nós todos seguramos nossas mãos
podemos segurar nossas mãos
quando fazemos novos planos?

eu finjo como ninguém tentar me controlar
sou sutil como a jaula de um leão
um demonstrar tão cuidadoso
lembre-se de aproveitar o seu tempo aqui
dê algum sentido aos seus meios
aos seus fins

nem mesmo preso.

Paul Banks