Numa calçada do Éden, conversam Adão e um coelho, enquanto passa o tempo.
- Olha aí o tempo!
- Opa!
- Opa!
- Opa!
...
- Sempre apressado ele, né? Deve de ser muito ocupado.
- É, mas quem se ocupa muito, Adão, é porque tem pouco o que fazer.
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sexta-feira, 5 de março de 2010
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Hans
Hans era um zumbi alemão que vivia no centro da cidade. Haviam grandes telões nas paredes dos arranha céus, exibindo amostras nonsense de pesadelos vídeo- musicais, celebridades mortas e noticiários, sob um noturno céu multicolorido e movimentado, marcado por aquarelas permanentes em forma de fogos, penetrado por antenas iluminadas com neon, rasgado por espaço- naves, estrelas e anjos cadentes e orações via satélite. Ainda que misantropo, Hans não tinha consciência de sua própria condição. Ainda que Joana ainda não tivesse partido, já se sentia sozinho.
Não há muitos registros de relações harmoniozas entre meio-mortos e artificialmente vivos, mas os vizinhos dizem que Frank já era como que da família, as línguas más-soltas afirmam até que não só era membro integrante como necessário. Hans não trabalhava e Joana era zumbi de circo. Frank operava telemarketing.
Fazia pouco menos de um mês que se podia ver o encontro diário dos artistas do Mondo (I)real no galpão abandonado, havia pouco tempo que Joana encantara-se pelo percussionista da banda e decidira aprender acrobacias, malabares e receitas veganas. Por vezes, entre uma pirueta e outra, podia-se ver uma perna voando ou um olhos virados, mas todos eram conscientes, sorridentes, equilibrados. O vizinho do 512 sempre descia para oferecer suco, vestido com alguma lingerie, ainda que comportada.
A noite em que Joana foi embora foi dessas de céu muito preto e luz muito clara. A imagem de Hans sentado nas escadas segurando os rubros globos oculares nas mãos não era de difícil reprodução, rodeado de papéis de panfletos, jornais e embalagens de metanfetaminas, enquanto Frank subia e descia os lances numa aparente pane de sistema. Joana lá fora, guardava os malabares na Combi colorida, entre sorrisos, soluços e engasgos.
- Você realmente não quer vir?
- Mas como?
- Ele é só uma porra de uma lata, Hans.
- Fala baixo.
- Eu só quero que você saiba que isso aqui não é o fim, que nossos corações não batem, mas se encontram quando nos abraçamos.
- Se for pra falar essa merda, vai logo.
- Eu vou te mandar pensamentos felizes.
- Ai, caralho.
E assim ela se foi, deixou pra trás uma porta inteira do guarda-roupa ocupada de roupas e esperança. Nunca voltou. Mesmo depois que o movimento se acabou e a tenda criou mofo. Só chegaram postais.
Hans colocou os olhos de volta nas órbitas, tirou a cabeça de cima do pescoço e a manteve pressionada contra o peito por três dias até que finalmente decidiu subir ao seu apartamento.
A morte-e-vida de Hans não ia muito além das paredes do prédio, cuidava de sentir falta, manter a sobrevivência. O noticiário anunciara a substituição dos modelos beta o mais breve possível e desde então criou-se certo desconforto social com a inquietação de todos os X-114, Frank desenvolveu paranóia, depressão e um desolador quadro esquizofrênico. Tentou suicídio de diversas formas, desde a ingestão de líquidos fatais como limonada até o vazamento proposital de fluido. Consta que Hans fez o possível, que Frank duraria, que tudo daria o que deveria dar.
O laudo médico, mecânico e policial daquela noite despertou horror durante três minutos do noticiário. Foram encontradas as roupas de Joana jogadas ao chão, comentam que Hans vestia uma delas durante o maquinocídio e que Frank foi sexualmente violentado após sua morte. Essa manhã muitos robôs e zumbis saíram em passeata em prol do movimento de humanização das máquinas inteligentes.
hidioteca.blogspot.com/2009/12/idioteca.html
http://vidadebolso.blogspot.com/
Não há muitos registros de relações harmoniozas entre meio-mortos e artificialmente vivos, mas os vizinhos dizem que Frank já era como que da família, as línguas más-soltas afirmam até que não só era membro integrante como necessário. Hans não trabalhava e Joana era zumbi de circo. Frank operava telemarketing.
Fazia pouco menos de um mês que se podia ver o encontro diário dos artistas do Mondo (I)real no galpão abandonado, havia pouco tempo que Joana encantara-se pelo percussionista da banda e decidira aprender acrobacias, malabares e receitas veganas. Por vezes, entre uma pirueta e outra, podia-se ver uma perna voando ou um olhos virados, mas todos eram conscientes, sorridentes, equilibrados. O vizinho do 512 sempre descia para oferecer suco, vestido com alguma lingerie, ainda que comportada.
A noite em que Joana foi embora foi dessas de céu muito preto e luz muito clara. A imagem de Hans sentado nas escadas segurando os rubros globos oculares nas mãos não era de difícil reprodução, rodeado de papéis de panfletos, jornais e embalagens de metanfetaminas, enquanto Frank subia e descia os lances numa aparente pane de sistema. Joana lá fora, guardava os malabares na Combi colorida, entre sorrisos, soluços e engasgos.
- Você realmente não quer vir?
- Mas como?
- Ele é só uma porra de uma lata, Hans.
- Fala baixo.
- Eu só quero que você saiba que isso aqui não é o fim, que nossos corações não batem, mas se encontram quando nos abraçamos.
- Se for pra falar essa merda, vai logo.
- Eu vou te mandar pensamentos felizes.
- Ai, caralho.
E assim ela se foi, deixou pra trás uma porta inteira do guarda-roupa ocupada de roupas e esperança. Nunca voltou. Mesmo depois que o movimento se acabou e a tenda criou mofo. Só chegaram postais.
Hans colocou os olhos de volta nas órbitas, tirou a cabeça de cima do pescoço e a manteve pressionada contra o peito por três dias até que finalmente decidiu subir ao seu apartamento.
A morte-e-vida de Hans não ia muito além das paredes do prédio, cuidava de sentir falta, manter a sobrevivência. O noticiário anunciara a substituição dos modelos beta o mais breve possível e desde então criou-se certo desconforto social com a inquietação de todos os X-114, Frank desenvolveu paranóia, depressão e um desolador quadro esquizofrênico. Tentou suicídio de diversas formas, desde a ingestão de líquidos fatais como limonada até o vazamento proposital de fluido. Consta que Hans fez o possível, que Frank duraria, que tudo daria o que deveria dar.
O laudo médico, mecânico e policial daquela noite despertou horror durante três minutos do noticiário. Foram encontradas as roupas de Joana jogadas ao chão, comentam que Hans vestia uma delas durante o maquinocídio e que Frank foi sexualmente violentado após sua morte. Essa manhã muitos robôs e zumbis saíram em passeata em prol do movimento de humanização das máquinas inteligentes.
hidioteca.blogspot.com/2009/12/idioteca.html
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domingo, 10 de janeiro de 2010
Idioteca II
Aqueles anjos que tocam trombetas,
eles vão sentar no sol
e tocarão todo o repertório do sagrado e do pagão.
Aquela rosa que nasceu no asfalto
imaginava que o jardim a seguiria
e não apenas o olhar do poeta
ela morrerá sozinha.
não é que meu passo seja largo
é que eu não piso nas rachaduras da calçada
eu não tenho pressa de chegar
eu nem queria ir.
A banda vai passar.
Uma centena de soldados de chumbo
subindo a rua que atravessa o canal.
batendo baquetas imaginárias
acordando todo o bairro residencial.
A lona vermelha vai ser armada na avenida
ocupando o cruzamento,
com os braços da mulher barbada, a boa vontade dos siameses e os olhos do buldogue perneta.
A entrada é cobrada em cruzeiros
o show é improvisado
e as fotografias devem ser tiradas sempre em preto e branco e sérias feições.
eles vão sentar no sol
e tocarão todo o repertório do sagrado e do pagão.
Aquela rosa que nasceu no asfalto
imaginava que o jardim a seguiria
e não apenas o olhar do poeta
ela morrerá sozinha.
não é que meu passo seja largo
é que eu não piso nas rachaduras da calçada
eu não tenho pressa de chegar
eu nem queria ir.
A banda vai passar.
Uma centena de soldados de chumbo
subindo a rua que atravessa o canal.
batendo baquetas imaginárias
acordando todo o bairro residencial.
A lona vermelha vai ser armada na avenida
ocupando o cruzamento,
com os braços da mulher barbada, a boa vontade dos siameses e os olhos do buldogue perneta.
A entrada é cobrada em cruzeiros
o show é improvisado
e as fotografias devem ser tiradas sempre em preto e branco e sérias feições.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Infância
E quando o vento passar
não baixem a cabeça
porque ele sempre traz uma nuvem
ou outra.
Então guardem silêncio
isso, fechem os olhos.
Porque deve haver respeito.
E iguinho, por favor.
Tire as mãos dos bolsos.
não baixem a cabeça
porque ele sempre traz uma nuvem
ou outra.
Então guardem silêncio
isso, fechem os olhos.
Porque deve haver respeito.
E iguinho, por favor.
Tire as mãos dos bolsos.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
A verdadeira culpa
O eu-lírico levantou para beber água na cozinha
e ficou lá de papo com a Creuza
enquanto isso a caneta foi, e contou tudo.
e ficou lá de papo com a Creuza
enquanto isso a caneta foi, e contou tudo.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Idioteca
Parando assim para olhar pra cima eu percebo - já não fazia isso tinha um certo tempo. O céu ainda tem a marca dos fogos de dia desses, as manchas coloridas na tela preta, as naves alienígenas fazendo treinamentos acrobáticos e eu me pergunto se isso deixa os americanos em alerta. Mas só acho mesmo que eles só estão se preparando para o dia da independência de alguma coisa lá do planeta deles. O meu melhor amigo, um modelo X-114, bebeu demais, não acho que ele vá acordar ainda hoje. Ele odeia que eu chegue perto da janela, o psiquiatra já me explicou que faz parte da paranóia cibernética dos últimos anos. Esses modelos têm trabalhado demais, é fato. Dia raro esse, de sentar, beber e jogar war. Eu não tenho mais ninguém. Oficialmente, na verdade, eu não tenho ninguém. Nem acho que iremos viver o suficiente para ver atribuírem alma aos 114 ou outras peças. Demoraram do mesmo jeito com os animais, as mulheres, os negros, o mickey. Um dia, com certeza. A Joana falou disso quando foi embora, eu não devia me apegar a esse tipo de amizade. Agora eu não tenho mais ninguém. Ele trabalha demais, eu sei, mas me traz sanduiches e não faz perguntas não operacionais. Nós temos evitado falar das versões atualizadas. Odeio lembrar que o Frank é Beta, que eu vou ter que procurar um emprego, trabalhar para nos sustentar, ser o homem da casa e tudo mais. Sabendo do perigo que é deixar meu querido sozinho. Sempre me lembro de como foi horrível aquele dia da limonada, a marca de tinta do "Beta filha da puta" que ele escreveu na testa antes de beber todo o copo nunca saiu toda. Não foi muito depois da Joana ir embora com um grupo de zumbis de circo. Ela disse "vem comigo" e eu não fui, eu não podia ir, nem era pelo Frank, não. O Frank é só um X-114 Beta. O meu problema é com esses mortos-vivos. A gente esteve lá, a gente viu que não há nada, mas eles insistem em querer fazer sentido, ter um propósito, essas coisas de quem ainda se ilude com o pós-vida. Sair por aí levando a alegria para as pessoas, carpe diem, frase de efeito e... porra...circo? Mas eu não sei se estou muito mais certo em sentar e morrer de novo, enquanto meus dentes - digo efetivamente - caem e minha pele definha, sem metáforas.
Eu não fui com a Joana e não foi pelo Frank nem pelos zumbis e o pó de arroz ou os malabares. Eu até ria quando um braço voava junto da bolinha, eu não fui porque tenho medo. Medo e preguiça. Dessa coisa de viajar em estrelas cadentes, de fazer sexo num motel na lua, de passear por cidades metonímicas e discutir o clima sentado na calçada com entidades divinas. Ela me manda postais de vez em quando. Num deles a Casa branca é de fato um país inteiro e os Smiths são realmente vários homens e mulheres chamados de Smith.
Estranho a campainha ainda não ter tocado. Meu vizinho sempre vem me pedir gelo a essa hora. Vestido naquelas ligeries, apertando quilos e mais quilos de gordura suada e peluda. Eu até gosto dele, esperava que hoje ele viesse com uma daquelas máscaras de sexy shop. Nada até agora.
O céu está bonito, mas sem novidades, a cidade se movimenta por entre os arranha-céus, se confunde e nos confunde, a que aresta nós pertencemos nessa roda viva cheia de neons e rachaduras nucleares. O próprio diabo entrou no mercado publicitário e se esforça pra manter uma boa relação com os que frequentam seu pub, pode-se vê-lo cumprimentando afetado os mais assíduos. Merdas acontencem, e aos montes, e a céu aberto e em tecnicolor francês. Vê-se por aí os olhos e camas de gato nos cartazes dos cinema, se é que você me entende. Talvez o Frank tenha razão, talvez a Joana tenha razão, talvez meu vizinho. Certo, então. Eu vou ao quarto e provo algumas calcinhas deixadas pra trás, uma branca, elástico rosa, sem rendinhas com um arco-íris estampado. De frente ao espelho eu espalho pomada branca pelo rosto. Eu caminho assim até a cozinha e espalho molho de tomate ao redor dos lábios, expremo cinco limões, duas colheres de açúcar e duas doses de vodka falsificada. Frank, meu querido, você sabia tudo, só não sabia a receita. Um brinde a Joana e aos Zumbis felizes do reino encantado. Você vai beber, lata de sardinha, vai beber tudinho. Isso, assim,
apague esse stand-by,
deixe o uniforme
e deite aqui comigo,
você ganhou peso, Frank, andou comendo fora? A culpa é toda sua seu beta filha da puta. Fique assim,
eu quero sentir seus fios desencapando.
Você gosta não é seu sacana? Adeus, Frank. Me desculpe. Não podemos ser eternos assim, não podemos. Me desculpe. Mas aqui tem coisa demais que nós nunca nem vamos tocar, vamos pôr uma música e dormir, Chopin? Está certo, não há nada onde você está indo, assim como não havia quando eu fui, não se preocupe em me esperar. Só me abrace, Frankzinho sua merda enferrujada de semên. Me abrace e termine de morrer.
Eu não fui com a Joana e não foi pelo Frank nem pelos zumbis e o pó de arroz ou os malabares. Eu até ria quando um braço voava junto da bolinha, eu não fui porque tenho medo. Medo e preguiça. Dessa coisa de viajar em estrelas cadentes, de fazer sexo num motel na lua, de passear por cidades metonímicas e discutir o clima sentado na calçada com entidades divinas. Ela me manda postais de vez em quando. Num deles a Casa branca é de fato um país inteiro e os Smiths são realmente vários homens e mulheres chamados de Smith.
Estranho a campainha ainda não ter tocado. Meu vizinho sempre vem me pedir gelo a essa hora. Vestido naquelas ligeries, apertando quilos e mais quilos de gordura suada e peluda. Eu até gosto dele, esperava que hoje ele viesse com uma daquelas máscaras de sexy shop. Nada até agora.
O céu está bonito, mas sem novidades, a cidade se movimenta por entre os arranha-céus, se confunde e nos confunde, a que aresta nós pertencemos nessa roda viva cheia de neons e rachaduras nucleares. O próprio diabo entrou no mercado publicitário e se esforça pra manter uma boa relação com os que frequentam seu pub, pode-se vê-lo cumprimentando afetado os mais assíduos. Merdas acontencem, e aos montes, e a céu aberto e em tecnicolor francês. Vê-se por aí os olhos e camas de gato nos cartazes dos cinema, se é que você me entende. Talvez o Frank tenha razão, talvez a Joana tenha razão, talvez meu vizinho. Certo, então. Eu vou ao quarto e provo algumas calcinhas deixadas pra trás, uma branca, elástico rosa, sem rendinhas com um arco-íris estampado. De frente ao espelho eu espalho pomada branca pelo rosto. Eu caminho assim até a cozinha e espalho molho de tomate ao redor dos lábios, expremo cinco limões, duas colheres de açúcar e duas doses de vodka falsificada. Frank, meu querido, você sabia tudo, só não sabia a receita. Um brinde a Joana e aos Zumbis felizes do reino encantado. Você vai beber, lata de sardinha, vai beber tudinho. Isso, assim,
apague esse stand-by,
deixe o uniforme
e deite aqui comigo,
você ganhou peso, Frank, andou comendo fora? A culpa é toda sua seu beta filha da puta. Fique assim,
eu quero sentir seus fios desencapando.
Você gosta não é seu sacana? Adeus, Frank. Me desculpe. Não podemos ser eternos assim, não podemos. Me desculpe. Mas aqui tem coisa demais que nós nunca nem vamos tocar, vamos pôr uma música e dormir, Chopin? Está certo, não há nada onde você está indo, assim como não havia quando eu fui, não se preocupe em me esperar. Só me abrace, Frankzinho sua merda enferrujada de semên. Me abrace e termine de morrer.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
O idiota
Depois de muitos outros, o idiota sobe ao microfone, não senta no banquinho preto, fixa o olhar na luz do holofote e tateia a eletricidade no microfone.
Boa noite - E leva um choque - Ah...porra... Er...Eu...eu me lembro bem de estar aqui.
Sim.
Eu me lembro bem de estar aqui e em todos os outros lugares onde eu poderia estar agora. Tenho essa sensação faz um tempo, não sei quanto não, mas eu não tinha ela quando era criança. O idiota baixa os indicadores, que encontravam-se erguidos ao lado da cabeça. Relaxa os ombros como quem desiste.
Muitas coisas me são assim. Eu sempre estive me perguntando se acontece com as outras pessoas. Não só com alguém mais, eu me refiro a todas as outras pessoas. Eu me refiro, por exemplo, ao momento exato em que eu percebi que existia. Vocês devem entender, essa coisa de existir e tudo mais. Tinha cinco anos e olhava para o chão, ouvindo a voz de alguma das minhas tias falando pra minha mãe. Era alguma coisa que eu não deveria estar escutando, mas que ninguém fazia muita questão de poupar dos meus ouvidos porque eu não entendia. Mas aí me vem novamente. Eu não entendia e ainda assim tinha aquela intuição, que hoje me é óbvia como conceito e não apenas instinto, de identificar segredos sem que fosse pedido para guardá-los. Alguma coisa que me faria chorar depois de esfaquear alguém ainda que por isso me viessem aplausos num vento que deveria me trazer reprovações. O idiota move os pés e balança o corpo, inquieto como se alguém contestasse uma certeza. Porque saibam, o que me impede de quebrar seus pescoços...reergue os indicadores - O que me impede de sair por este salão pisando suas cabeças e estuprando seus homens e suas mulheres não é, sob hipótese alguma, o medo daqueles guardas, não é de nenhuma forma o medo de sentir seus sapatos pressionando minha boca ensanguentada contra o chão. Muito embora seja isso que o que irá acontecer e muito embora eu toda a dor que disso virá, não é nem de longe esse temor que me impede. É... eu não sei, outra coisa.
E é disso que eu estou tentando falar, não são os fatos, não é o medo de estar sozinho. É a dúvida, minha vontade de ser qualquer outro e noutros corpos sentir inalcançável coceira na sola do pé, a TV ligada ainda que muda e sem imagem, a capacidade de se saber que está sonhando ou de criar mundos e episódios nas sujeiras das paredes, o espasmo da lembrança de um momento de vergonha, passar horas vendo nuvens brancas no céu azul e esquecendo todas as descobertas sobre o sentido de se estar aqui...
Não me basta que alguém levante a mão e diga já passei por isso, a não ser que esse alguém também possa trocar sua alma com a de meu corpo... O idiota baixa a cabeça e fecha os olhos, sob o palco a platéia entorta bocas, balança cabeças e troca olhares comentando a uma suposta obviedade em tudo o que foi dito. Um próximo sobe ao palco, senta-se e entrelaça os dedos. Sente envergonhado o calor da forte luz branca em seu rosto.
então senhoras e senhores, boa noite...
Boa noite - E leva um choque - Ah...porra... Er...Eu...eu me lembro bem de estar aqui.
Sim.
Eu me lembro bem de estar aqui e em todos os outros lugares onde eu poderia estar agora. Tenho essa sensação faz um tempo, não sei quanto não, mas eu não tinha ela quando era criança. O idiota baixa os indicadores, que encontravam-se erguidos ao lado da cabeça. Relaxa os ombros como quem desiste.
Muitas coisas me são assim. Eu sempre estive me perguntando se acontece com as outras pessoas. Não só com alguém mais, eu me refiro a todas as outras pessoas. Eu me refiro, por exemplo, ao momento exato em que eu percebi que existia. Vocês devem entender, essa coisa de existir e tudo mais. Tinha cinco anos e olhava para o chão, ouvindo a voz de alguma das minhas tias falando pra minha mãe. Era alguma coisa que eu não deveria estar escutando, mas que ninguém fazia muita questão de poupar dos meus ouvidos porque eu não entendia. Mas aí me vem novamente. Eu não entendia e ainda assim tinha aquela intuição, que hoje me é óbvia como conceito e não apenas instinto, de identificar segredos sem que fosse pedido para guardá-los. Alguma coisa que me faria chorar depois de esfaquear alguém ainda que por isso me viessem aplausos num vento que deveria me trazer reprovações. O idiota move os pés e balança o corpo, inquieto como se alguém contestasse uma certeza. Porque saibam, o que me impede de quebrar seus pescoços...reergue os indicadores - O que me impede de sair por este salão pisando suas cabeças e estuprando seus homens e suas mulheres não é, sob hipótese alguma, o medo daqueles guardas, não é de nenhuma forma o medo de sentir seus sapatos pressionando minha boca ensanguentada contra o chão. Muito embora seja isso que o que irá acontecer e muito embora eu toda a dor que disso virá, não é nem de longe esse temor que me impede. É... eu não sei, outra coisa.
E é disso que eu estou tentando falar, não são os fatos, não é o medo de estar sozinho. É a dúvida, minha vontade de ser qualquer outro e noutros corpos sentir inalcançável coceira na sola do pé, a TV ligada ainda que muda e sem imagem, a capacidade de se saber que está sonhando ou de criar mundos e episódios nas sujeiras das paredes, o espasmo da lembrança de um momento de vergonha, passar horas vendo nuvens brancas no céu azul e esquecendo todas as descobertas sobre o sentido de se estar aqui...
Não me basta que alguém levante a mão e diga já passei por isso, a não ser que esse alguém também possa trocar sua alma com a de meu corpo... O idiota baixa a cabeça e fecha os olhos, sob o palco a platéia entorta bocas, balança cabeças e troca olhares comentando a uma suposta obviedade em tudo o que foi dito. Um próximo sobe ao palco, senta-se e entrelaça os dedos. Sente envergonhado o calor da forte luz branca em seu rosto.
então senhoras e senhores, boa noite...
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Portas giratórias.
Pronto Freddie, já podemos dizer o que quisermos agora.
Com todas as luzes apagadas e ninguém mais aqui, eu acho que já posso contar o segredo: nada é certo. A eternidade dura o tempo que se leva para falar dela. E eu não digo por mim. Eu já empilhei os discos e os sacos de areia. Digo por você, que ainda vive os dias, lugares e pessoas, uns após os outros. Lembro de ter ouvido muitas estórias de mais de quatro cantos. Me corrija se estiver errado, mas eu acho que aquelas pessoas fazem parte de mim tanto quanto qualquer um de vocês. Aqui dentro não faz a mínima diferença. A quem você acha que eu pediria conselhos se eles me servissem de alguma coisa, às suas bocas e línguas e dentes? Está tudo aqui, muito bem guardado. Eu posso ouvir quando bem quiser e, deixando só entre nós, o que eu bem quiser. Aqui, desse jeito, eu acendo uns e os deixo queimar. Só pra trazer o clima. Agradeço a sua visita, sinceramente. Mas te reservo o direito de ir embora, quando quiser e de certa forma, como quiser. É uma maneira de não ter de te mandar sair sabe? Assim, dizendo, brigando. Levando a culpa.
Mas enquanto estamos aqui, vamos dançar. O Disco do Medeski é o que eu tenho guardado para as visitas ultimamente. Você escuta o que quiser em casa, talvez numa outra visita, mas aqui, eu quero Medeski. Sabe, eu realmente acho que existir é como dançar aquela música da casa de bolhas. Um belo dia você acorda e aperta os olhos contra a luz do sol direto na sua cara, "Seja bem vinda, pessoa qualquer...mas que você está olhando?" E não há tempo para se entender muito porque sua mãe quer que você consiga um bom emprego, então você pisa as cabeças que conseguir até alguém pisar a sua. É uma pirâmide humana e melhor se segurar onde conseguiu parar, dar as mãos a quem está por perto e esperar que o próximo a cair seja o dono do pé que suja sua bela roupa de natal. Que bom, ele caiu. E você não sobe simplesmente porque está de mãos dadas demais. Agora me entende a porta de saída aberta certo? Muito bem, segure-se quem puder, e é melhor fazer rápido e mais rápido porque o papai pode ir-se daqui a qualquer momento. É, mais rápido, ninguém disse que criar três filhos seria fácil. Rápido, a sua garota está grávida e o seu marido acabou de perder o emprego. Rápido. Você tem um feixe de luz a pegar. Rápido, ou o sangue dessa cidade vai escorrer para fora dessas antenas. Rápido, mais disso aqui e mais daquilo lá, porque temos que ver a transmissão ao vivo antes que o mundo acabe mais uma vez. Rápido, amor, mais rápido, mais forte. Porque se você perder o ritmo, no próximo acorde você cai.
E a mão que seguramos, ela nos solta. Sim, ela solta e você não vê nenhum dedo entre meus dedos. Não se preocupe querida, vá apenas quando e se quiser ir, eu não vou me mover nem que Elliot traga mais um mês de abril e Dante me providencie alguns círculos de fogo sal e sangue. Não lhe faltarão mãos e cabeças dispostas a serem pisadas se puseres os peitos pra fora e as idéias pra dentro. Ainda há muita fumaça e eletricidade e, enquanto tocar Medeski, eu fico.
Com todas as luzes apagadas e ninguém mais aqui, eu acho que já posso contar o segredo: nada é certo. A eternidade dura o tempo que se leva para falar dela. E eu não digo por mim. Eu já empilhei os discos e os sacos de areia. Digo por você, que ainda vive os dias, lugares e pessoas, uns após os outros. Lembro de ter ouvido muitas estórias de mais de quatro cantos. Me corrija se estiver errado, mas eu acho que aquelas pessoas fazem parte de mim tanto quanto qualquer um de vocês. Aqui dentro não faz a mínima diferença. A quem você acha que eu pediria conselhos se eles me servissem de alguma coisa, às suas bocas e línguas e dentes? Está tudo aqui, muito bem guardado. Eu posso ouvir quando bem quiser e, deixando só entre nós, o que eu bem quiser. Aqui, desse jeito, eu acendo uns e os deixo queimar. Só pra trazer o clima. Agradeço a sua visita, sinceramente. Mas te reservo o direito de ir embora, quando quiser e de certa forma, como quiser. É uma maneira de não ter de te mandar sair sabe? Assim, dizendo, brigando. Levando a culpa.
Mas enquanto estamos aqui, vamos dançar. O Disco do Medeski é o que eu tenho guardado para as visitas ultimamente. Você escuta o que quiser em casa, talvez numa outra visita, mas aqui, eu quero Medeski. Sabe, eu realmente acho que existir é como dançar aquela música da casa de bolhas. Um belo dia você acorda e aperta os olhos contra a luz do sol direto na sua cara, "Seja bem vinda, pessoa qualquer...mas que você está olhando?" E não há tempo para se entender muito porque sua mãe quer que você consiga um bom emprego, então você pisa as cabeças que conseguir até alguém pisar a sua. É uma pirâmide humana e melhor se segurar onde conseguiu parar, dar as mãos a quem está por perto e esperar que o próximo a cair seja o dono do pé que suja sua bela roupa de natal. Que bom, ele caiu. E você não sobe simplesmente porque está de mãos dadas demais. Agora me entende a porta de saída aberta certo? Muito bem, segure-se quem puder, e é melhor fazer rápido e mais rápido porque o papai pode ir-se daqui a qualquer momento. É, mais rápido, ninguém disse que criar três filhos seria fácil. Rápido, a sua garota está grávida e o seu marido acabou de perder o emprego. Rápido. Você tem um feixe de luz a pegar. Rápido, ou o sangue dessa cidade vai escorrer para fora dessas antenas. Rápido, mais disso aqui e mais daquilo lá, porque temos que ver a transmissão ao vivo antes que o mundo acabe mais uma vez. Rápido, amor, mais rápido, mais forte. Porque se você perder o ritmo, no próximo acorde você cai.
E a mão que seguramos, ela nos solta. Sim, ela solta e você não vê nenhum dedo entre meus dedos. Não se preocupe querida, vá apenas quando e se quiser ir, eu não vou me mover nem que Elliot traga mais um mês de abril e Dante me providencie alguns círculos de fogo sal e sangue. Não lhe faltarão mãos e cabeças dispostas a serem pisadas se puseres os peitos pra fora e as idéias pra dentro. Ainda há muita fumaça e eletricidade e, enquanto tocar Medeski, eu fico.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Um bilhete para N.
Querida complicação,
Porquê deixar aquelas flores exatamente onde estavam, eu ainda não sei, só não me pareceu certo fazer qualquer contrário. daqueles crepúsculos que tinhamos guardado, estou levando o da Emily, por nada além de poder carrega-lo na minha mão. Precisava de alguma luz e você sabe como anda meu astigmatismo ultimamente. O por-do-sol que te deixo é suficiente para dividires com qualquer outro alguém, só evite colocar na geladeira de novo, assim como as bananas e o pão, não vai servir mais para ninguem se não fizer como digo. Quando volto, eu não sei nem se. Estive pensando muito nessa ultima vida alguns "e ses" sobre o mar. E se a água cortasse minhas idéias, e se ela cortasse minhas veias, se ele cortasse minha consciencia, eu estaria livre amanhã? Talvez e se, eu te traga um cavalo marinho e um palhacinho eletrico. Estou levando os poemas de Donne. Não se preocupe, não vou lê-los, mas o amassado me faz lembrar o teu seio pressionado contra a capa enquando você dorme. No mais, não sei nem se. Deixei as melodias das canções de ninar em alguma gaveta. Não me espere, mas guarde meu lugar até a ultima sessão.
te deixo o que houver de melhor fora do meu corpo.
Tua paz.
Porquê deixar aquelas flores exatamente onde estavam, eu ainda não sei, só não me pareceu certo fazer qualquer contrário. daqueles crepúsculos que tinhamos guardado, estou levando o da Emily, por nada além de poder carrega-lo na minha mão. Precisava de alguma luz e você sabe como anda meu astigmatismo ultimamente. O por-do-sol que te deixo é suficiente para dividires com qualquer outro alguém, só evite colocar na geladeira de novo, assim como as bananas e o pão, não vai servir mais para ninguem se não fizer como digo. Quando volto, eu não sei nem se. Estive pensando muito nessa ultima vida alguns "e ses" sobre o mar. E se a água cortasse minhas idéias, e se ela cortasse minhas veias, se ele cortasse minha consciencia, eu estaria livre amanhã? Talvez e se, eu te traga um cavalo marinho e um palhacinho eletrico. Estou levando os poemas de Donne. Não se preocupe, não vou lê-los, mas o amassado me faz lembrar o teu seio pressionado contra a capa enquando você dorme. No mais, não sei nem se. Deixei as melodias das canções de ninar em alguma gaveta. Não me espere, mas guarde meu lugar até a ultima sessão.
te deixo o que houver de melhor fora do meu corpo.
Tua paz.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Subterrâneo II
well i'm scared of riding a falling star.
but I got time, if you call me I can't deny.
and I want to go back home,
I just don't know what to do
with my haste
and nothing
and useless time
to keep a pace
with something
but warning signs
can I want just to stand by
and never play the part
of a never landing guy
if we're better than we've ever pretended to be
what I ask and wonder is why
what I ask and wonder is why
what I ever wonder is why...
Alguma coisa caía morta naquela noite. E ninguém tinha nada a ver com isso. A filha de alguém, o problema de alguém e ninguém tinha nada a ver com isso.
Ao redor da mesa uns quatro, cinco universos passageiros. Jogado sobre ela apenas o mais absoluto conjunto de existencias. Imateriais e vazias. Vestidinho colorido, de retalhos quadriláteros. Dois, três centímetros de lado. Vermelho, roxo, azul,vermelho, amarelo, vermelho. "TV set", "68", "warhol", "peace", "love", "war". Azul, amarelo, vermelho. Os outros eram apenas all stars e camisetas brancas e aros grossos, essas coisas. Das coisas que se odeia, dos absurdos que se vê, que se ouve.
Acontece que pessoas falam e isso dói e dor não pensa, só responde.
Siga olhar, acompanhando a fumaça, subindo ao reino dos céus, condensando sob o disco voador, o alienígena bipolar com lápis e papel na mão estudando a síndrome de tourette, a linguagem, a realidade. Por um módico, simbólico sacrifício pode-se estacionar sobre a terceira nuvem a esquerda, sob os olhos, as preces e flanelas dos anjinhos cacheados, ao lado direito de deus. Acima disso, não se sabe, liberdade talvez. Uns quadros da Marilyn pendurados nos macacos, comidos por morangos de saia. Muito mais que isso, tudo com lasers. Acima de deus e de toda moral da história apenas japoneses dançando can can para cadeiras sorridentes num deserto de jujubas, debaixo de um escaldante céu de metáforas sanguinolentas e sádicas, empilhadas ao final de uma esteira industrial. Acima da janela do apartamento divino mora apenas um sorridente e solitário livre arbítrio.
através das lentes extraterrenas estou eu trabalhando na árdua tarefa de desviver, passando o tempo com o tempo e a TV, brincando de quem piscar primeiro. Eu queria um Dali aqui. Na minha parede.
No mais, aqui eu fico. Porque, com todo o coração, eu quero.
Eles lá vão. Porque, e nada além de porque, podem, nada mais.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
trinta primeiros segundos
"Canetas e livros e comida com meus all-star sujos no chão, pois eu não passo de mais uma amálgama numa lata de sardinha, da classe média à periferia, todo dia". Ela penteava os cabelos pensando em escovar os dentes e escovava se perguntando se era como a TV tinha ensinado. Se os cabelos já estivessem o mais possivelmente à moda de Hitler, ela podia abandonar o apartamento. "se ele pegasse fogo eu perderia... as pessoas sentiriam pena de mim, a dona Dolores... eu iria embora pra longe, talvez fosse para onde coisas acontecem, para onde o mundo já me transformasse no que eu quero ser, sem bienais nunca mais, sem esperar por uma peça, ler sinopses, sem downloads, sem alternativas. Eu saio e não tenho opção se não fazer o que eu gosto, meu próprio mundo stalinista, e se eu quisesse assistir a um blockbuster, me preocuparia em como voltar pra casa depois...não iria...a dona Dolores talvez me desse almoço." Já no primeiro andar, voltava e desligava o gás, olhava a porta sendo trancada por sua chave, tentava guardar a imagem na memória, para não ter que voltar novamente.
As ruas eram claras e frias. A impressão de que todos que perpassam não são nada senão mudos. "Pra onde vai o playboy arrumado senão para o mesmo inferno que eu, se ele não for empregada de cozinha? Será que já fabricam empregados, mas por que o cabelo não está molhado e onde está a sacola? Para onde vai a atendente de telemarketing se ela cruza na direção oposta, se para lá não existem consultórios médicos, odontológicos, publicitários...telefones a se atender? Para onde vão todos esses mudos se deveriam estar indo para onde eu vou, na mesma lata, evitando o mesmo suor? Eles devem ser do futuro, onde eu ainda vou chegar." Continua o mesmo rumo de todos os dias úteis, quando havia pessoas úteis indo para seus lugares misteriosos e desconhecidos, "talvez seitas secretas, escritórios da máfia, escolas sem credenciamento." Aumentava as distancias e diminuia o cansaso, acelerava o passo e perdia a vontade de voltar, perdia a lembrança de como deixara o apartamento, do plano de regressar o mais rápido possível e voltar a dormir, guardava, como ontem, tudo na mesma inconsciencia. "Vou chegar atrasada, direi que tive um acidente, carros batem todo dia, pessoas batem todo dia, estrelas explodem todo dia. Se isso aqui batesse e eu não acho que morreria, iria andando ou esperaria por outra lata com menos sardinhas? Eu não preciso de atestado para acidentes, assaltos, brigas em família, mas talvez ela peça. Eu preciso me fazer um corte, um curativo, um hematoma... talvez precise fingir um choro. Com quem eu brigaria em casa, também justificaria os cortes, senão pelo menos em minha alma, esses eu não preciso fingir, mas esses eu não consigo chorar. Porra, como eu tô atrasada. Oi, tudo bom?" - Oi, cê vai chegar atrasada num vai? "vou sim, me deixa ir, porra agora eu tô mais atrasada... O acidente, não precisa de cortes, posso contar um história inteira, o motorista da frente estava no celular brigando com o empregado da firma porque ele esqueceu da última entrega de ontem a noite, mas eles vão dar um jeito no problema o empregado não vai ser demitido por isso só quando a Joelma esposa dele ficar grávida e ainda vai ser justa-causa o motorista já sabe até o que dizer mas eu não sei ele freia no sinal verde e a gente bate descem todos e eu tenho que esperar a próxima lata com menos sardinhas e por isso cheguei atrasada, pronto é isso" Ela entra na sala
"Bom dia"
- Bom dia
senta, sorri e se cala.
As ruas eram claras e frias. A impressão de que todos que perpassam não são nada senão mudos. "Pra onde vai o playboy arrumado senão para o mesmo inferno que eu, se ele não for empregada de cozinha? Será que já fabricam empregados, mas por que o cabelo não está molhado e onde está a sacola? Para onde vai a atendente de telemarketing se ela cruza na direção oposta, se para lá não existem consultórios médicos, odontológicos, publicitários...telefones a se atender? Para onde vão todos esses mudos se deveriam estar indo para onde eu vou, na mesma lata, evitando o mesmo suor? Eles devem ser do futuro, onde eu ainda vou chegar." Continua o mesmo rumo de todos os dias úteis, quando havia pessoas úteis indo para seus lugares misteriosos e desconhecidos, "talvez seitas secretas, escritórios da máfia, escolas sem credenciamento." Aumentava as distancias e diminuia o cansaso, acelerava o passo e perdia a vontade de voltar, perdia a lembrança de como deixara o apartamento, do plano de regressar o mais rápido possível e voltar a dormir, guardava, como ontem, tudo na mesma inconsciencia. "Vou chegar atrasada, direi que tive um acidente, carros batem todo dia, pessoas batem todo dia, estrelas explodem todo dia. Se isso aqui batesse e eu não acho que morreria, iria andando ou esperaria por outra lata com menos sardinhas? Eu não preciso de atestado para acidentes, assaltos, brigas em família, mas talvez ela peça. Eu preciso me fazer um corte, um curativo, um hematoma... talvez precise fingir um choro. Com quem eu brigaria em casa, também justificaria os cortes, senão pelo menos em minha alma, esses eu não preciso fingir, mas esses eu não consigo chorar. Porra, como eu tô atrasada. Oi, tudo bom?" - Oi, cê vai chegar atrasada num vai? "vou sim, me deixa ir, porra agora eu tô mais atrasada... O acidente, não precisa de cortes, posso contar um história inteira, o motorista da frente estava no celular brigando com o empregado da firma porque ele esqueceu da última entrega de ontem a noite, mas eles vão dar um jeito no problema o empregado não vai ser demitido por isso só quando a Joelma esposa dele ficar grávida e ainda vai ser justa-causa o motorista já sabe até o que dizer mas eu não sei ele freia no sinal verde e a gente bate descem todos e eu tenho que esperar a próxima lata com menos sardinhas e por isso cheguei atrasada, pronto é isso" Ela entra na sala
"Bom dia"
- Bom dia
senta, sorri e se cala.
domingo, 9 de agosto de 2009
Bobagem sobre o nascer do sol.
...Pode-se dizer até que já estava acordado há tempo, mas só agora, com as costas na grama, sentia o gélido da manhã arrepiando os pelos do rosto. O sol nascia e morria no céu de Monet e já se tinha um cigarro aceso, um passo cambaleante no longe e olhos para o horizonte. A impressão que dá é que se dorme em um lugar completamente diferente de onde se desperta, o mundo se move quando se move, as coisas, as nuvens, os olhos, o mundo mesmo. Senta-se lado a lado apenas pra se ter a sensação de que algo interessante pode ser dito. Conversa-se na beira dessa estrada, mas ninguém diz nada.
"Eu podia morrer agora. Só porque eu não quero voltar. Ir apenas. Nem importa muito, na verdade, seguir já me basta, fico feliz de não ter que decidir mais nada. Eu não sei mais nada. Me pergunto se alguém sabe mais que eu e sempre me respondo que sim, nunca me corrijo se precisar. Essa grama é tão verde. Será que seria estranho deitar no colo dele? Me parece confortável agora, fosse ele um irmão. Não faria diferença. Certeza que ele não se perguntaria isso. Deitaria se quisesse. Ele já foi mais longe ou será que é sempre até aqui? Me pergunto se eles já chegaram pelo menos até aqui. Isso não deveria importar. Me pergunto se eles se importam, se eles se perguntam, o que importa. Ele deve estar pensando poemas sobre o nascimento agora, sobre o sol, a vida, a natureza e o tempo, essas coisas. Coisas que eu entendo, mas não decoro poemas. Penso se ela gostaria. De poemas, de poetas, dele, de mim. Não paro de refletir sobre nosso próximo passo, sobre quando o sol subir. É o que eu termino por ser, um reflexo do futuro no presente, aprendendo passos de uma dança ainda sem música, uma preocupação sobre o que virá a ser, dançando pelo que já foi. Ele sim, sabe o que é. Eu sou completamente inútil, tanto para o que vai ser, quanto para o que está sendo, qualquer coisa perdida nesse entremeio. Reflito muito o que ainda está pra chegar para poder sentir o prazer de trazê-lo, de muitos caminhos eu perdi a viagem, só me resta o medo de voltar."
"A natureza poupa seu amarelo para o pôr-do-sol. E para o nascer ela poupa o carinho. Porra, isso tudo é muito lindo.A gente tem que curtir. Em pensar que todo mundo ainda está dormindo, ele acabou de levantar e está aqui só curtindo ao meu lado, ela está lá curtindo a dela. A gente devia acender aqui e agora. Porra, eu preciso me libertar, atingir o contato sozinho, que nem eles fazem, sinceramente eu não sei se eles se prendem ou se já estão muito livres, se eu estou preso... O que eu posso fazer é respeitar e só. O que me importa é curtir isso tudo. É tudo muito belo, esse sol, essa natureza, quem é mais nesse mundo que pode aproveitar a beleza disso tudo? Soubesse desenhar eu pintava um quadro agora, dava pra ela. A gente fazendo amor, nós três, a grama, o sol, o céu e deus. Acho que eu estou olhando para Ele agora, e Ele de volta pra mim, e só assim a gente já se ama. Eu abro os braços pra esse olhar, nessa luz Será que ele está curtindo, sentado aqui ao meu lado? Cadê ela? Porra, que fome, a gente tem que arrumar uma grana ou voltar... esse sol vai já doer na vista."
"Está frio, vou abraça-los, depois volto daqui e eles virão atrás de mim. Me preocupo agora, que não devo. Foi uma noite boa da qual eu não posso falar, nem admitir, nem celebrar, foi além do que eu esperava apenas, mas eu não posso convidar, não posso me negar, nem querendo, nem quero. Iria mais a frente, se me prometessem não haver mais volta, nunca mais, não quero é me jogar em mais abismos e depois ter de escalá-los para voltar, só quero uma viajem mais longa com a promessa de que ela não terá volta, nem arrependimentos, nem desculpas, justificativas, castigos, sentimentos, conversas, reconciliações. Todos esses retornos que um retorno trás. Vou abraçá-los e escutar lirismos sobre o nascer e a natureza, quebrar o silêncio, levar as vontades, chamar as decisões. Mas eu discordo do que é cantado em um e do que é silêncio em outro, ainda assim preciso guardar o que já não cabe em mim. Vou voltar."
"Eu podia morrer agora. Só porque eu não quero voltar. Ir apenas. Nem importa muito, na verdade, seguir já me basta, fico feliz de não ter que decidir mais nada. Eu não sei mais nada. Me pergunto se alguém sabe mais que eu e sempre me respondo que sim, nunca me corrijo se precisar. Essa grama é tão verde. Será que seria estranho deitar no colo dele? Me parece confortável agora, fosse ele um irmão. Não faria diferença. Certeza que ele não se perguntaria isso. Deitaria se quisesse. Ele já foi mais longe ou será que é sempre até aqui? Me pergunto se eles já chegaram pelo menos até aqui. Isso não deveria importar. Me pergunto se eles se importam, se eles se perguntam, o que importa. Ele deve estar pensando poemas sobre o nascimento agora, sobre o sol, a vida, a natureza e o tempo, essas coisas. Coisas que eu entendo, mas não decoro poemas. Penso se ela gostaria. De poemas, de poetas, dele, de mim. Não paro de refletir sobre nosso próximo passo, sobre quando o sol subir. É o que eu termino por ser, um reflexo do futuro no presente, aprendendo passos de uma dança ainda sem música, uma preocupação sobre o que virá a ser, dançando pelo que já foi. Ele sim, sabe o que é. Eu sou completamente inútil, tanto para o que vai ser, quanto para o que está sendo, qualquer coisa perdida nesse entremeio. Reflito muito o que ainda está pra chegar para poder sentir o prazer de trazê-lo, de muitos caminhos eu perdi a viagem, só me resta o medo de voltar."
"A natureza poupa seu amarelo para o pôr-do-sol. E para o nascer ela poupa o carinho. Porra, isso tudo é muito lindo.A gente tem que curtir. Em pensar que todo mundo ainda está dormindo, ele acabou de levantar e está aqui só curtindo ao meu lado, ela está lá curtindo a dela. A gente devia acender aqui e agora. Porra, eu preciso me libertar, atingir o contato sozinho, que nem eles fazem, sinceramente eu não sei se eles se prendem ou se já estão muito livres, se eu estou preso... O que eu posso fazer é respeitar e só. O que me importa é curtir isso tudo. É tudo muito belo, esse sol, essa natureza, quem é mais nesse mundo que pode aproveitar a beleza disso tudo? Soubesse desenhar eu pintava um quadro agora, dava pra ela. A gente fazendo amor, nós três, a grama, o sol, o céu e deus. Acho que eu estou olhando para Ele agora, e Ele de volta pra mim, e só assim a gente já se ama. Eu abro os braços pra esse olhar, nessa luz Será que ele está curtindo, sentado aqui ao meu lado? Cadê ela? Porra, que fome, a gente tem que arrumar uma grana ou voltar... esse sol vai já doer na vista."
"Está frio, vou abraça-los, depois volto daqui e eles virão atrás de mim. Me preocupo agora, que não devo. Foi uma noite boa da qual eu não posso falar, nem admitir, nem celebrar, foi além do que eu esperava apenas, mas eu não posso convidar, não posso me negar, nem querendo, nem quero. Iria mais a frente, se me prometessem não haver mais volta, nunca mais, não quero é me jogar em mais abismos e depois ter de escalá-los para voltar, só quero uma viajem mais longa com a promessa de que ela não terá volta, nem arrependimentos, nem desculpas, justificativas, castigos, sentimentos, conversas, reconciliações. Todos esses retornos que um retorno trás. Vou abraçá-los e escutar lirismos sobre o nascer e a natureza, quebrar o silêncio, levar as vontades, chamar as decisões. Mas eu discordo do que é cantado em um e do que é silêncio em outro, ainda assim preciso guardar o que já não cabe em mim. Vou voltar."
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Burning bridges
Lá depois daquele sino tem um jardim de flores amarelas, amor. E quando ele toca lento, elas balançam, como se fechassem os olhos, as pétalas e simplesmente fossem sino e vento. Lá, nesse jardim, se a gente subir pelos caminhos, bem ao centro tem uma árvore, folhas vermelhas de pôr do sol pra sempre. Elas nunca caem, as flores nunca murcham, nunca nem anoitece, lá. É tudo tão bonito, amor. Sabe que combina com aquele teu vestido, o jardim? É, aquele amarelo que eu gosto em dia de sol. Quando bate o vento. Nem sei se já te falei. Do vestido, ou da verdade sobre os teus olhos, do toque das tuas pernas. Ele combina, amor. O vestido. Vocês combinam: meu amor, o vestido, o jardim. Eu te imagino tanto lá. Te ponho no mesmo cenário e nem preciso misturar cores, tons,trocar pincéis. Você está lá, sob a árvore, por entre as flores, em par com o vento. Te ponho numa moldura, mas parece que teu vestido e teus cabelos nunca param de falar com a brisa. É tudo tão lindo, amor. E sempre que o sino toca, você está lá. Tudo tão constante, condizente com teus tons de crepúsculo.
Mas esse som me deixa olhos pesados sempre que te leva embora, porque lá tudo te faz sentido, como o mosaico do teu retrato.
Eu tentei entrelaçar o preto dos teus cabelos com o escuro do meu céu. Ele insiste em amanhecer claro. E minhas estrelas e tulipas não reparam no teu vestido. Nem meu sol pálido te reflete. Eu tentei. Mas os retalhos do pierrot não são coloridos nem se podem colorir. Meu retrato é tão sem foco, sem forma. Minhas peças simplesmente não se encaixam. Mas o que me entristece é o meu jardim, as tulipas brancas, o luar, nada combina com teu vestido amarelo, com as tuas flores.
Lá depois daquele sino tem um jardim. Não te levo lá, não.Que tenho minhas vaidades, minhas promessas. Mas sempre espero, amor, com tristeza, o pôr do sol te levar.
Mas esse som me deixa olhos pesados sempre que te leva embora, porque lá tudo te faz sentido, como o mosaico do teu retrato.
Eu tentei entrelaçar o preto dos teus cabelos com o escuro do meu céu. Ele insiste em amanhecer claro. E minhas estrelas e tulipas não reparam no teu vestido. Nem meu sol pálido te reflete. Eu tentei. Mas os retalhos do pierrot não são coloridos nem se podem colorir. Meu retrato é tão sem foco, sem forma. Minhas peças simplesmente não se encaixam. Mas o que me entristece é o meu jardim, as tulipas brancas, o luar, nada combina com teu vestido amarelo, com as tuas flores.
Lá depois daquele sino tem um jardim. Não te levo lá, não.Que tenho minhas vaidades, minhas promessas. Mas sempre espero, amor, com tristeza, o pôr do sol te levar.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Enquanto isso...
desenterrando um pouco.
...Nos campos pós-guerra
- Parou, parou...
O serviço pára.
- Senhor, devemos separar os negros do resto?
- Sei lá, faz alguma diferença quando queimar?
- Não sei, não, Senhor.
- Bom, então cava um outro buraco ali e...
...Nos campos pós-guerra
- Parou, parou...
O serviço pára.
- Senhor, devemos separar os negros do resto?
- Sei lá, faz alguma diferença quando queimar?
- Não sei, não, Senhor.
- Bom, então cava um outro buraco ali e...
quinta-feira, 19 de março de 2009
Encontro marcado.
Esses olhos claros de cristal, me parece um sair do tempo, parece que tudo parou e só há nós dois. Ah, como o tempo pára. Esses olhos transparentes de cristal. Parece-me, o universo é de um imenso branco leitoso, nós sobre um infinito vidro a nos encarar. Se eu estendo a mão eu sinto que posso tocar o nada, mas se não toco, sinto o vazio de que nunca irei nem ao menos estar próximo desse horizonte de papel onde nossos corpos se desenham. Esses olhos claros. Eu dou o primeiro passo e flutuo sentindo que posso transpassá-los, e posso.
Não há vertigem, não há prazer, o sentimento de estar suspenso, subir, descer, não há. Tudo aqui é horizonte, muito o que eu possa ver, flutuando no espaço, ao longe estrelas morrem e nascem, passam aqui e ali ao meu lado algumas esferas de pedra floridas, alguns cardumes de luzes...mas tudo é horizonte.
Do horizonte se descola uma estrela, balança devagar como se percebesse possuir a liberdade, meio círculo a direita, meio circulo a esquerda, um rodopio e me vê. Do infinito onde eu jamais chegaria, ela vem a caminhar, passos tímidos, tomando forma e me alcança. Por entre esse imenso brilho uma silhueta de mulher, pelo seu apagar, na altura do meu rosto, suas sandálias cor de vinho escuro subindo e se enroscando pela perna morena até uma longa saia rodada de veludo azul enfeitada com estrelas de papel laminado meio soltas como numa fantasia feita a mão. Minha estrela mulher segura uma rocha de flores amarelas que passeava devagar às suas costas e senta a me olhar, sorrindo:
- O que você acha que está acontecendo?
Ela me pergunta contando alguns fios dos longos cabelos escuros, a mesma cor dos olhos, que eu confundo com o céu pulsante ao redor, começo a achar que de seus cabelos se trança o tudo que eu vejo.
- Aqueles olhos claros de cristal...
Ela continua:
- Tinha esperança de que você entendesse.
- Eu nunca fiz questão de fazê-lo
- Não faça, não precisa.
- É que a ignorância...
- Isso, a ilusão.
Faz-se um silêncio, que eu quebro:
- Por que você...
- Tinha esperança...
- Sim, mas eu não sei.
- Foram tantas eras até aqui.
- Você veio de muito longe?
- Do seu horizonte.
- Eu sei. Sabe onde estamos?
- No meu horizonte.
- Eu sei... pergunto sem querer muito saber. Acho que só quero falar.
- Eu não quero voltar.
- Eu quero ficar.
(silêncio)
- Você acha que temos tempo?
- Eu sinto que vou morrer.
- Como é isso?
- Não sei descrever, ninguém sabe.
- Ninguém pode.
- Mas eu sinto muito a morte.
- Você já morreu muito?
- Talvez essa seja a primeira vez.
- Talvez você nunca tenha sentido.
- Talvez esteja sentindo errado.
Calamos e ela olha para o longe:
- Eu te amo.
- Eu quero te amar.
- Vem comigo?
- Até onde?
- Eu não quero deixar o seu horizonte.
- Eu vou.
- Vai demorar eras.
- Eu vou.
Eu abro os olhos flutuando sob o mar de lençóis brancos, sobre a cama branca, vejo o teto branco.
Os olhos fechados ao meu lado, claros como cristal, se abrem ao sentirem os meus:
- Eu não te amo mais.
- O quê?
- Preciso ir, preciso de eras até chegar.
- Chegar? Onde?
- Meu horizonte.
- Você volta?
- Se eu olhar pra trás...
- Não vai mais ver de onde saiu.
- Tudo desmorona a todo redor...
- Tudo se transforma.
Dos olhos ao teto, à janela, um longe, horizonte, ainda cintila a última estrela da manhã.
"Eras..."
Não há vertigem, não há prazer, o sentimento de estar suspenso, subir, descer, não há. Tudo aqui é horizonte, muito o que eu possa ver, flutuando no espaço, ao longe estrelas morrem e nascem, passam aqui e ali ao meu lado algumas esferas de pedra floridas, alguns cardumes de luzes...mas tudo é horizonte.
Do horizonte se descola uma estrela, balança devagar como se percebesse possuir a liberdade, meio círculo a direita, meio circulo a esquerda, um rodopio e me vê. Do infinito onde eu jamais chegaria, ela vem a caminhar, passos tímidos, tomando forma e me alcança. Por entre esse imenso brilho uma silhueta de mulher, pelo seu apagar, na altura do meu rosto, suas sandálias cor de vinho escuro subindo e se enroscando pela perna morena até uma longa saia rodada de veludo azul enfeitada com estrelas de papel laminado meio soltas como numa fantasia feita a mão. Minha estrela mulher segura uma rocha de flores amarelas que passeava devagar às suas costas e senta a me olhar, sorrindo:
- O que você acha que está acontecendo?
Ela me pergunta contando alguns fios dos longos cabelos escuros, a mesma cor dos olhos, que eu confundo com o céu pulsante ao redor, começo a achar que de seus cabelos se trança o tudo que eu vejo.
- Aqueles olhos claros de cristal...
Ela continua:
- Tinha esperança de que você entendesse.
- Eu nunca fiz questão de fazê-lo
- Não faça, não precisa.
- É que a ignorância...
- Isso, a ilusão.
Faz-se um silêncio, que eu quebro:
- Por que você...
- Tinha esperança...
- Sim, mas eu não sei.
- Foram tantas eras até aqui.
- Você veio de muito longe?
- Do seu horizonte.
- Eu sei. Sabe onde estamos?
- No meu horizonte.
- Eu sei... pergunto sem querer muito saber. Acho que só quero falar.
- Eu não quero voltar.
- Eu quero ficar.
(silêncio)
- Você acha que temos tempo?
- Eu sinto que vou morrer.
- Como é isso?
- Não sei descrever, ninguém sabe.
- Ninguém pode.
- Mas eu sinto muito a morte.
- Você já morreu muito?
- Talvez essa seja a primeira vez.
- Talvez você nunca tenha sentido.
- Talvez esteja sentindo errado.
Calamos e ela olha para o longe:
- Eu te amo.
- Eu quero te amar.
- Vem comigo?
- Até onde?
- Eu não quero deixar o seu horizonte.
- Eu vou.
- Vai demorar eras.
- Eu vou.
Eu abro os olhos flutuando sob o mar de lençóis brancos, sobre a cama branca, vejo o teto branco.
Os olhos fechados ao meu lado, claros como cristal, se abrem ao sentirem os meus:
- Eu não te amo mais.
- O quê?
- Preciso ir, preciso de eras até chegar.
- Chegar? Onde?
- Meu horizonte.
- Você volta?
- Se eu olhar pra trás...
- Não vai mais ver de onde saiu.
- Tudo desmorona a todo redor...
- Tudo se transforma.
Dos olhos ao teto, à janela, um longe, horizonte, ainda cintila a última estrela da manhã.
"Eras..."
domingo, 1 de março de 2009
Da vida das coisas
O fio se estende no ar sem um ponto de chegada. Ou de partida, não se sabe ao certo. Como as escadas que levam ao nada nos cantinhos das praças recém construídas.
E durante aquele instante o fio saía de um poste sem chegar a outro, sem chegar ao chão nem a nada que o mantivesse ali, suspenso feito braço e mão e dedo de moça, apontando o vazio azul do céu de meio dia. Por um instante, um breve instante. E manteve a pose, como criança que espera a reação à arte, como penteado novo, num orgulho que apenas espera, sem pedir, o elogio.
Por um instante, um breve instante.
E veio o menino e catou a bola fujona.
E passou o moço com a gravidade nos olhos e o olhar no chão. As pessoas cruzam com o amor, mas nem sempre o cumprimentam.
E passaram os pássaros num bater cansado de asas.
E passou a brisa atrasada.
Passou o silêncio.
- Desista. Gritou a folha seca e amarela do chão. – Eu voei daquela árvore e ninguém notou.
- Desista. Suspirou a pedra. – Do tempo eu tanto sei e ninguém, nunca, perguntou.
- Desista. Sussurrou o céu.
E o fio deitou no chão como o sorriso desacompanhado que se fecha.
E o instante, num breve instante, se perdeu.
E durante aquele instante o fio saía de um poste sem chegar a outro, sem chegar ao chão nem a nada que o mantivesse ali, suspenso feito braço e mão e dedo de moça, apontando o vazio azul do céu de meio dia. Por um instante, um breve instante. E manteve a pose, como criança que espera a reação à arte, como penteado novo, num orgulho que apenas espera, sem pedir, o elogio.
Por um instante, um breve instante.
E veio o menino e catou a bola fujona.
E passou o moço com a gravidade nos olhos e o olhar no chão. As pessoas cruzam com o amor, mas nem sempre o cumprimentam.
E passaram os pássaros num bater cansado de asas.
E passou a brisa atrasada.
Passou o silêncio.
- Desista. Gritou a folha seca e amarela do chão. – Eu voei daquela árvore e ninguém notou.
- Desista. Suspirou a pedra. – Do tempo eu tanto sei e ninguém, nunca, perguntou.
- Desista. Sussurrou o céu.
E o fio deitou no chão como o sorriso desacompanhado que se fecha.
E o instante, num breve instante, se perdeu.
Os passarinhos fracos
-Não, eu não sei se vai funcionar.
Bom, das outras vezes funcionou, sabe como é né? O eterno retorno e tudo o mais. Se deu o mesmo problema é porque está pedindo a mesma solução. E eu não vou nem pensar em criar nada melhor, nada se cria mesmo, se tudo se repete então pra que essa briga toda? Esse filme é repetido mas até que é bom. Tem comédia, romance, aventura, é pra todas as idades. Oras, é Disney! Será mesmo que eles pensam que alguém gosta daquele rato? Ah! Mas não é rato. É camundongo. A verdade é que eu nunca conheci ninguém que diga ser fã dele. Acho que até o pluto tem mais capa de caderno. Enfim... é aquela coisa do marxismo. Queriam inventar um bonequinho simpático com quem todo mundo se identificasse. Daí eles criam um rato.
- Não, eu não sei o que eu estou fazendo.
Não que eu esteja dizendo que todo mundo deva odiar a Disney, boicotar a Coca-cola e virar vegetariano, pra mim nada consegue superar um bom churrasco e as propagandas de natal da coca são sempre emocionantes sem falar que aquele filme da Alice ainda é um marco no psicodelismo. Sei lá...é um caso a se pensar, afinal rato é rato, o yoda é um E.T. feio que fala errado e o homem aranha não passa de um “nerd” de sorte. Valorização da fraqueza. É ter uma espinha no meio do nariz e dizer que é charmoso. Isso não é normal, decididamente não é normal, os galãs hollywoodianos estão ficando cada vez mais feios, tem gente trocando Tom Cruise por Jim Carrey. Na natureza os passarinhos fracos não voam, caem do ninho e morrem, enquanto isso as livrarias estão cheias de galinhas ricas escrevendo sobre as próprias asas quebradas. Talvez Hitler não estivesse todo errado com os extermínios. Aliás, o pior erro dele foi mesmo aquele bigodinho ridículo. Eis a diferença entre Hitler e o James Bond. O bigodinho.
- Não, eu não vou mais tentar.
Grande! Agora eu vou pintar uma suástica nos peitos e sair por aí cuspindo nas pessoas. Era só o que me faltava mesmo. Dar algum crédito a um bigodinho daqueles. Logo eu, que sempre fui uma mulher que me levantei contra essas atrocidades.
- Não, eu não vou embora.
Eu vou a cozinha, eu vou ao banheiro, eu vou ao céu e às estrelas. Nada. Eu vou mesmo é a lugar nenhum, vou ficar aqui e resolver meus problemas, mesmo que da forma mais difícil. Claro que antes eu vou tentar a mais fácil de novo.
- Não, eu não vou desistir.
Eu tento, eu luto, eu penso em apelar pros santos. Eu uso tudo de mim, tudo ao meu redor. Tento o possível e o impossível.
Eu fracasso categoricamente.
- Não amor, eu não consegui.
Ele começa a se desesperar, e meu amor não suporta. É hora de tomar uma decisão.
- Amor... eu sinto muito, de verdade...
Eu quase choro.
- Mas acho que você vai ter de levantar e mudar de canal na TV mesmo. Acho que esse controle remoto não tem mais jeito.
Bom, das outras vezes funcionou, sabe como é né? O eterno retorno e tudo o mais. Se deu o mesmo problema é porque está pedindo a mesma solução. E eu não vou nem pensar em criar nada melhor, nada se cria mesmo, se tudo se repete então pra que essa briga toda? Esse filme é repetido mas até que é bom. Tem comédia, romance, aventura, é pra todas as idades. Oras, é Disney! Será mesmo que eles pensam que alguém gosta daquele rato? Ah! Mas não é rato. É camundongo. A verdade é que eu nunca conheci ninguém que diga ser fã dele. Acho que até o pluto tem mais capa de caderno. Enfim... é aquela coisa do marxismo. Queriam inventar um bonequinho simpático com quem todo mundo se identificasse. Daí eles criam um rato.
- Não, eu não sei o que eu estou fazendo.
Não que eu esteja dizendo que todo mundo deva odiar a Disney, boicotar a Coca-cola e virar vegetariano, pra mim nada consegue superar um bom churrasco e as propagandas de natal da coca são sempre emocionantes sem falar que aquele filme da Alice ainda é um marco no psicodelismo. Sei lá...é um caso a se pensar, afinal rato é rato, o yoda é um E.T. feio que fala errado e o homem aranha não passa de um “nerd” de sorte. Valorização da fraqueza. É ter uma espinha no meio do nariz e dizer que é charmoso. Isso não é normal, decididamente não é normal, os galãs hollywoodianos estão ficando cada vez mais feios, tem gente trocando Tom Cruise por Jim Carrey. Na natureza os passarinhos fracos não voam, caem do ninho e morrem, enquanto isso as livrarias estão cheias de galinhas ricas escrevendo sobre as próprias asas quebradas. Talvez Hitler não estivesse todo errado com os extermínios. Aliás, o pior erro dele foi mesmo aquele bigodinho ridículo. Eis a diferença entre Hitler e o James Bond. O bigodinho.
- Não, eu não vou mais tentar.
Grande! Agora eu vou pintar uma suástica nos peitos e sair por aí cuspindo nas pessoas. Era só o que me faltava mesmo. Dar algum crédito a um bigodinho daqueles. Logo eu, que sempre fui uma mulher que me levantei contra essas atrocidades.
- Não, eu não vou embora.
Eu vou a cozinha, eu vou ao banheiro, eu vou ao céu e às estrelas. Nada. Eu vou mesmo é a lugar nenhum, vou ficar aqui e resolver meus problemas, mesmo que da forma mais difícil. Claro que antes eu vou tentar a mais fácil de novo.
- Não, eu não vou desistir.
Eu tento, eu luto, eu penso em apelar pros santos. Eu uso tudo de mim, tudo ao meu redor. Tento o possível e o impossível.
Eu fracasso categoricamente.
- Não amor, eu não consegui.
Ele começa a se desesperar, e meu amor não suporta. É hora de tomar uma decisão.
- Amor... eu sinto muito, de verdade...
Eu quase choro.
- Mas acho que você vai ter de levantar e mudar de canal na TV mesmo. Acho que esse controle remoto não tem mais jeito.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Ecsiste
"é como perder nos tetris"
Inspiração é coisa que existe. Eu nem sou profissional, não tenho obrigação. Mas o estar inspirado é só um conceito mal entendido. É uma receita de bolo, na verdade. É como perder no tetris, "e era como se jogasse espace invaders". Precisa-se de música, precisa-se de alcool, sono, ou coisa que os valha. Precisa-se, na verdade, de caneta, papel e uma grande confusão organizada. Acho que a entropia cuida do resto. A pontuação começa a me incomodar, a ortografia também. Porque até pouco tempo eu não percebia que não conhecia certas palavras tão fáceis e comuns quanto inchada e agora eu não sei se é inchada o que eu quero dizer mas o fato é que os pontos finais e vírgulas são realmente o que tem me incomodado além dessa dúvida se incomodado realmente se escreve assim... . Isso não foi nada genial e provavelmente alguém já fez melhor. É por isso que eu não tiro de mim essas coisas que eu não quero que me pertançam. Escrevo para um imaginário público real. O meu mal é a arte final, ter de finalizar me retira toda a arte. Quintana deve ser bem mais artista não enxuto, mas ninguém iria gostar de um Quintana molhado. Afinal, ninguém gosta de perceber que também pode fazer aquilo. Dá a obrigação de fazer arte também. Eis minha definição de artista: um alguém que todo mundo admira, mas ninguém quer ser. Agora meu dicionário tem três palavras, eu realmente não tenho muita pressa, se eu der meu tempo, alguém vai fazer isso por mim e eu me conformo com os créditos imaginários. É dolorosamente fácil e agradável supervalorizar os talentos alheios. Os próprios? Deixe que alguém sinta a dor de valorizá-los.É estranha essa coisa de sentir menor do que é. E os animais se parecem mesmo com seus donos. Meu elefante ainda se encolhe quando vê passarinho.
Eu preciso dessa arte final, como quem precisa arrumar a casa pras visitas mesmo sentindo que tudo está no seu devido lugar. Ontem eu toquei algumas cores nos meus pensamentos. Elas são minhas cores brilhando em tons de azul. E são minhas, só minhas.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
shaking paper
Tenho em mãos essa caneta e esse papel trêmulo. Nele eu teço linhas e orquídeas multicoloridas de palavras desconexas. Tenho essa mão trêmula e essas idéias trêmulas bailando no papel, sob minhas plantas eu faço dançar minhas idéias, elas não parecem ter o peso do mundo na forma como dançam, só dançam. Feito vagalumes no escuro, num vôo mais rápido, mais largo, por entre os galhos, numa direção circular, ascendente, e se os tocam brotam e desabrocham flores como num passo acelerado de primavera. É o transparecer das minhas palavras, o espreguiçar das minhas idéias, a construção dos meus cenários, das minhas mulheres e figuras, dos meus homens e confissões, dos meus casais e realidades.
Em minha mão trêmula a caneta parece ganhar um intuito e o papel parece entender, se abre, então, nosso jardim, é algo bom a vida dos objetos. Dos meus casais eu escolho um, das realidades, meus objetos escolhem a minha e nós seguimos no ritmo dessas vozes femininas, de tambores africanos, desses acordes livres uns dos outros. Esse caos musical, o meu caos lírico, nossa dança contemporânea. No esticar dos corpos eu lembro o corpo dela, seu toque e meu tato, nosso movimento, meu ritmo, seu desenho e minhas orquídeas. Ela percebe minha vontade e recua, eu entendo a sua, espero. Seus olhos. Minha orquídea impõe seu movimento e eu apenas sigo, as curvas chamam minhas mãos e pelo toque eu decido meu tato e minha mão torna-se firme e ela enrijesse, suspira. Desliza. Volta e me beija. Ou me morde, ou me deixa. Ela dança e se perde, fecha os olhos e me esquece. Minha orquídea parece madura agora, eu pareço entender e ela me deixa ver e decide o passo, o ritmo e a voz da música. O pintor afasta o pincel da aquarela terminada e joga seu olhar, eu seguro minha mão sobre o papel, o jardim desenhado e então jogo a caneta. Ela pára, sente e sorri, jogando de lado o corpo. Meus olhos batem asas de borboleta e visitam os dela, visitam o meu jardim e repousam na orquídea a morrer.
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