segunda-feira, 30 de março de 2009

Samba de cinco notas

Foi por um norte ou pelo sul
que eu deixei de guiar a carruagem você me deu?
naquele dia...
E meu dinheiro se acaba
dá uma senha pra eu falar com deus.

Você me diz 'tá tudo bem'
outro dia
sei lá
sei cá que hoje eu vou te chamar.
Como é que fica?
Um cinema na tarde
e aquele beijo que te devo, dá?

Mas não me deixa assim
num adeus sem abraço
uma dança num sem espaço
e quem não gosta
quem não carece
aparece
inventa então
um motivo pra televisão calar.

e vai que até ficará
nosso plano imperfeito
um 'meu amor dá um jeito'
de amanhecer
eu posso dormir em órbita
terrestre ou além mar.
Ou além mar...

Arpejo

Existe essa linha fina
entre as sutilezas opostas do mundo.
Linha delicada, quase feminina.
Sabe, amor e ódio
criação e esquisitice
amizade e idiotice
essas obviedades;
começo...
fim....

sábado, 28 de março de 2009

Insônia

A claridade adentrando o quarto
O corpo pedindo descanso
O coração batendo acelerado
A mente a mil por hora
Hipóteses e insinuações tormentuosas
As pálpebras seguindo o ritmo, desritmando
O passo, descompassando

E enquanto por fora apresenta
uma imobilidade, inércia
Uma tormenta, um inferno,
uma infinita tortura
por dentro impera...
Sonhos perdidos, ilusões ameaçadas
Inquietude eloqüente
Por fora o beijo de boa noite.

O coração batendo acelerado
A claridade adentrando meu quarto
para um dia... nublado.

[12.11.2008]

quinta-feira, 26 de março de 2009

Dimitri


Silenciosamente ela caiu, mas não no chão. Sem surpresa nenhuma. Não desejava, mas, de certa forma, aquilo me causava um bem desconfortável, um mal confortável. O gosto salgado vinha-me a boca, descia pela garganta. Mais um grito engolido. Mais alguns soluços digeridos. E essa digestão se prolongava cada vez mais, a ponto de me causar enjôos repentinos.


Embora esteja bastante cansado, nada tenho feito durante o dia todo, durante minha vida toda. Nada de interessante acontece. Não me esforcei pra conseguir nada, tudo veio a mim. Todo o nada que me rodeia quando estou imerso em nada além de mim. E o que há além de mim? Talvez me sentisse melhor se tivesse feito algo. O que há pra ser feito? Não há nada. Nada além de respirar. Inspirar fundo. Sem expirar.


Silenciosamente outra cai, mas não no chão. Parece bastante pesada. Tenho que engolir novamente. Sinto nojo. Não sei ao certo de quê. Talvez seja esse gosto salgado. Me sentia triste, eu acho. Talvez fosse o cheiro ao redor me lembrando de algo esquecido. Algo que eu parecia não querer lembrar. De qualquer forma a saliva descia como sempre, pesada, morna e salgada. Assim como aquela que já havia caído sem molhar o carpete.


Olhava ao redor e todos os lugares não continham significado. O que eu buscava quando observava os seus detalhes? O que eu precisava para ser mais um alguém em meio à multidão? Eu estava deslocado. Meu relógio havia parado em horas desconhecidas. Horas de enjôos e lágrimas que nunca caiam no chão. Me faltava algo. Algo que não saberia ao certo explicar. Talvez fosse amor. O que eu tenho não sei se é amor ou se é somente solidão. Uma falta desesperada de um alguém, de um alguém a mais, de mim mesmo, de um amor, de amor próprio. Uma falta de mim...


Há tantas coisas bonitas do lado de fora, mas elas não se encaixam em mim, não me fazem o menor sentido. Não me atraem. Tudo em mim é incompleto. Tudo em mim é incoerente. Não estou acompanhando o ritmo de todos. Todos parecem ter a mesma pressa. São os mesmos passos compondo uma música estranha. Um som desconhecido aos meus ouvidos. É algo de novo ao meu silêncio, mas é algo passageiro. Um som que penetra em mim e não me preenche. Meu silêncio em meio ao som de automóveis, gritos e buzinas. Meus olhos dançam, procuram algo, se perdem na fumaça. Logo estou imerso novamente. Logo estou perdido nos meus gestos sem motivações, nos meus sorrisos sem alegria, nas minhas lágrimas que não molham. Estou perdido dentro de mim. E o que há em mim? Eu não sei, mas sei que deve haver algo. Assim eu espero...

quarta-feira, 25 de março de 2009

Vincent

Era uma vez um desejo,
Era uma vez uma caixa e um segredo,
Era uma vez um menino,
O pequeno vincent, tão rico, tão pobre, em um mundo tão grande sozinho.
Era uma vez o amor,
A vez de um renegado amor se inibir, um enterro,
E lá dentro de si o vazio,
Expressado no rosto em silêncio.
Era uma vez o desprezo,
Seria loucura ou mais um pesadelo?
Era uma vez um vazio...
Que esse mesmo menino, o vincent, cansa pra carregar...

Mas porque parar pra pensar em chorar?
Porque diabos a humanidade frenética virá a lhe consolar?
Se nenhuma de suas lágrimas será pela dor?

Pensando assim vincent se mudou.
O seu lar não é mais colorido.
O seu gesto não tem mais um motivo
Para mudar toda a dor que escondeu.
É triste a situação... Pra nós.
Não para vincent.
Mas na verdadeira morada dele os anjos serão ilusões,
As matas serão apenas matas
E a estrada brilhante não terá elegância.
Mas vincent continuará a cantar:
“Se essa rua, se essa rua fosse minha,
Eu mandava, eu mandava ladrilhar...”
Enquanto lembrar dela, recitará cada letra do verso,
E a cada verso um sorriso.
Ou a cada verso um soluço? Se possível...
Nada tenho a perder. Que medo eu hei de ter? Disse ele.
O que não tenho mais é dos vermes.
Na caixa, lacrada, enterrada.
A humanidade há de ver,
O que há nessa caixa ninguém há de ter.
Segredo é segredo. E a caixa é doença.
Ninguém vai querer vê?
Ninguém pára, vincent!
Você vê, nos outros, o que quer ver.
É o que pensam de você
Deixe que fique assim.

Pensando nisso vincent se mudou
Mas esse lar era mais colorido
Vincent não é mais um menino
E sonhou com o que desejou
No lugar onde os filhos brincavam
Era onde sua mulher elogiava
O pequeno grande Vincent
Que além de tudo se amava
E sabia que lá não há dor.
Mas o tempo passou, e então ele
Notou no que se enganou
O mundo de vincent é tão diferente!
As palavras já pairam no ar
As pessoas sentiam-se livres
E não tinham medo de amar.
Porque para vincent nada mais é pior
Ou no mundo dele ou dos outros
Que não poder se ver no espelho.

Era uma vez uma caixa
Enterrado com ela tinha o seu coração
Era uma vez um amor que no silêncio ficou
Para não ser em vão, mentiras serão?
Como provar algo agraciado com um simples olhar?
Mas o pequeno vincent continuava a se esforçar
E seu desejo era além da imaginação
Queria sentir o calor do abraço sem poder sentir medo
Mas nada há de ser tão desejado no mundo por vincent
Do que ter importância para os outros e para si mesmo.